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Asura's Wrath e como os jogos podem ir além do real

Em Jogos | 29/01/2012 22:25
Asura's WrathSim, há dedos gigantes nesta imagem.

Asura's Wrath é um jogo muito doido. Na pele de um semideus em busca de vingança contra outros deuses diversos (não é a mais original das premissas, há de se dizer), a roupagem à God of War e um gameplay que por vezes remete a shooters podem até trazer atenção ao jogo, mas é no seu personagem central inimaginavelmente forte e na surrealidade de seus épicos combates interplanetários que o game se destaca. E, Independente dos méritos do projeto, não se pode ficar indiferente a esse detalhe de sua apresentação: o quanto o jogo desmembra nossa realidade para criar um universo próprio, quase onírico, em que deuses atravessam corpos celestes em batalhas monumentais e muitos pré-conceitos sobre as leis que regem nosso mundo são subvertidas ou ignoradas.

Após jogar a demo do novo projeto da Capcom, fiquei a pensar a que ponto os jogos chegaram, tanto em evolução tecnológica quanto em narrativa. Temos farta tecnologia à disposição, com capacidade gráfica suficiente para retratar as mais insanas ideias e mesmo assim a indústria, principalmente de jogos AAA, embalada por tramas simplistas recicladas de outras mídias, a cada geração de consoles se esforça em recriar a realidade de forma mais verossímil que nossa própria existência.

Jogos são mestres em permitir o inconcebível, pois de sua origem essencialmente virtual pode-se criar o que quer que se venha à mente: não há restrições de pensamento e o único limite para a materialização das ideias é aquele imposto pela tecnologia utilizada.

KatamariA franquia Katamari é um ótimo exemplo de como os jogos
podem ser singularmente surreais e divertidos.

Porém, se avaliarmos os 10 jogos mais vendidos de 2011, à exceção de um ou outro, todos representam a realidade de alguma maneira, sejam na guerra, esportes ou música. Analisando-os por essa ótica, somado ao fato de que a tecnologia por trás dos jogos sempre busca emular com maior precisão o mundo em que vivemos, uma impressão que se tem é que, ao invés de buscar uma identidade própria que vá além dos preceitos que regem nosso dia-a-dia - apesar dos seus devidos exageros e uma boa dose de suspensão de descrença-, os games profissionalizam-se cada vez mais em simular nossa realidade.

Os jogos em sua vertente digital ainda são uma mídia muito jovem, a qual precisa entender melhor a si mesmo frente aos mais antigos literatura, música e cinema para criar uma identidade própria. E se os games são a fusão dessas três mídias com o toque singular da interatividade, por que não aproveitar esse diferencial para contrariar o que acreditamos, esperamos e mesmo imaginamos?

Não há física ou matemágica que possam ser sempre válidas no campo das ideias e não há regras além daquelas que são sentenciadas nas infindáveis possibilidades que um jogo pode oferecer. Esforçar-se para tornar os games apenas um simulacro da realidade é miniminizar seu poder de imersão, narração e subversão do senso comum.

Embora isso não signifique que os jogos criados até agora não tenham sido tão fantasiosos quanto poderiam ser, observar os lançamentos mais recentes mostra que podem assim se tornarem ainda mais. Se a falta de amadurecimento da indústria é um sintoma da ausência de uma identidade que não fique apenas na interatividade, jogos como Asura's Wrath são bons exemplos da divertida insanidade surreal que somente os games podem proporcionar.

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