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Recomendação: Veludo Azul (1986), de David Lynch

Em Análises | 24/07/2011 02:11 Veludo Azul

[Breve recomendação publicada originalmente em 12/07/2011 no blog Cinesserie.]

David Lynch é um diretor muito peculiar, do tipo "ame" ou "odeie". Conhecido por suas criações bizarras e oníricas, que inclusive renderam o adjetivo lynchiano para descrever seu estilo único de direção, Lynch consegue transformar histórias simples, por vezes banais e até pouco interessantes em contos fantásticos permeados por uma surrealidade que pouco se vê no cinema. E Veludo Azul (Blue Velvet, no título original), uma de suas grandes obras, apesar de seu cerne policial, é tão lynchianamente estranho e surreal quanto simples em sua essência.

Contando a história de um jovem (interpretado pelo grande astro dos filmes de Lynch, Kyle MacLachlan) que encontra uma orelha decepada e decide buscar respostas após a polícia negar-lhe maiores detalhes, Veludo Azul transpira estranheza através de seu humor sombrio, seus personagens bizarros e temas fortes como masoquismo, tortura e voyerismo.

E esse clima perturbador é exacerbado ainda mais pela atmosfera por vezes noir e o contraste de suas cores, tão coloridas e singelas quanto escuras e amedrontadoras, sendo mais uma demonstração da ambiguidade de seus personagens do que apenas um mero artifício visual.

Inclusive uma possível interpretação do filme está relacionada a essa visão dúbia do ser humano, de que em cada um de nós sempre há escuridão, ainda que sejamos modelos exemplares de cidadãos. E Lynch se esforça bastante para mostrar esse contraste ao longo do filme, seja através do bom moço que observa uma bizarra cena de sexo de dentro do armário ou no belo jardim que esconde criaturas horrendas.

Ainda que seus filmes pareçam não fazer sentido (e inclusive Lynch já deixou claro que isso é intencional, pois para ele os filmes têm de ser tão confusos quanto nossas próprias vidas o são), não há como negar que suas produções perturbam e nos fazem pensar. E por trás do thriller policial de Veludo Azul há algo muito mais assustador do que suas insinuações sobrenaturais: a sugestão de que talvez nós sejamos tão bizarros quanto seus próprios personagens.

Imagem: divulgação.

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“O consumismo moderno diz respeito ao prazer que se renova pelo descarte e compra de novos objetos que propriamente à acumulação de bens.” - Collin Campbell