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Seriam os videogames perda de tempo?

Em Jogos | 14/03/2010 03:53 A Persistência da Memória

Jogos são uma mídia voltada, em tese, ao puro entretenimento. Se há arte, densidade ou complexidade psicológica, em tese estes são apenas artifícios para tornar a experiência de entretenimento ainda mais convincente, contribuindo para que despendamos dezenas de horas de nossas escassas vidas diante de nossos consoles/PCs apreciando nossos jogos favoritos. Estaríamos nós desperdiçando nosso parco tempo na Terra diante desses caríssimos equipamentos eletrônicos, interagindo com entidades virtuais que em nada agregam a nosso intelecto? Ou estamos nós apenas deleitando-nos com uma nova forma de Arte, da mesma forma como apreciamos livros e filmes?

Já tem algum tempo que esses questionamentos têm rondado minha mente, e confesso que as questões tornaram-se ainda mais intensas após ler este tópico no fórum OuterSpace e ver o vídeo abaixo.

Mesmo sendo eu um estudante de produção de jogos e aspirante a indie developer, costumo questionar-me sobre a validade de minhas (futuras) criações, pontuando se eu não estaria contribuindo para a alienação de pessoas ao invés de ajudá-las de alguma forma a tornarem-se alguém melhor ou a ao menos aprender algo com aquilo que estou criando. Não que os jogos, com seu caráter lúdico e de entretenimento, devam ter algum valor utilitário. Ou que mesmo como (um eventual) objeto de Arte tenham algum valor além da Arte pela Arte.

O fato é que o tempo é escasso. E do alto de nossas 24hs diárias multiplicadas pelos anos de nossas vidas temos que muito desse tempo é consumido com tarefas triviais, metódicas e, em certa medida, acéfalas. Não estou dizendo que os videogames se encaixem em algum desses adjetivos - sinceramente eu acho que não - e mesmo que não devemos ter nosso momento de puro vazio mental para aquele relax de descompressão (é aí que os jogos entram para nos ajudar a desestressar!). Talvez a pauta seja mesmo relacionada ao excesso e ao consumo do tempo com atividades rasas do que com (os coitados dos) jogos.

Brice Morrison, autor do excelente The Game Prodigy, escreveu recentemente um excelente post justamente sobre o tema. Uma das frases dele que mais me fez refletir,

And so reluctantly I waved goodbye to my entertaining friend in search of deeper art and ideas.

só me fez pontuar o quanto os games ainda têm a crescer como mídia, tanto em maturidade de conteúdo quanto em aceitação por parte das massas. E é aí que entra uma outra discussão que costumo trazer: seriam os games apenas entretenimento por entretenimento ou poderiam ser algo mais, a ponto de nos trazer reflexão, discussão de temas conflitantes ou mesmo insights que conduzem a mudanças de vida?! Como jogos, os jogos estão aí para nos divertir e não para necessariamente nos ensinar ou trazer profundas reflexões sobre o Universo, a Vida e Tudo o Mais. Mas aí é que entra (novamente) a questão do tempo.

90hs de um Xenosaga. 60hs de um Final Fantasy. 8hs de um Resident Evil. 7hs de um Dead Space. 10 minutos de uma sessão de Wii Sports. Tudo isso é tempo consumido; não necessariamente para o bem ou para o mal (adoramos polarizações!): é apenas tempo consumido. Da melhor forma? Não sei dizer, é uma questão pessoal (e social?). Mas ainda assim é o tal tempo consumido. E isso em excesso pode ser sim um hell of a problem, como bem relatou em sua vídeo-história mais acima o Mr. CirrusEpix.

Novamente citando o companheiro Brice Morrison,

To many people, games are only allowed to exist for pure entertainment.

E isso é necessariamente um problema? Jogos são também uma válvula de escape, uma fuga da realidade, uma forma de vivermos outras vidas, outras eras, em outros mundos - e interagindo para tal. Livros e cinema também são similares em seus usos, mas sem o coeficiente de interação para tornar a experiência mais pessoal e, por que não?, moralmente dependente de nossas escolhas.

O fato é que, nesse assunto controverso, o melhor é questionar-se a si mesmo (pleonasmo enfático) o porquê dessa afeição pelos jogos digitais. Convenhamos: é um hobby caro, demorado - tomando tempo (olhe ele aí de novo!) que poderíamos estar a fazer outras coisas - e em certa medida cheio de contravenções penais frente às leis internacionais e de nosso país. Por que o apreciamos tanto? Por que investimos tanto de nosso tempo em uma atividade que, na prática, pouco parece agregar à nossa existência? Eu arrisco meu palpite.

XenosagaXenosaga, mesmo com deslizes,
é um primor artístico e narrativo

Para mim, jogos são uma forma de transcender nossa existência e exercitar nossa coragem e poder de escolha. Escolha do real, do surreal, da vida, da morte, da punição, do julgamento, da intransigência. Escolhas essas por vezes impossíveis no mundinho fora da tela e que encontram nos jogos a interação perfeita para personificação de nossa realidade (ainda que limitada pela estrutura do jogo). E talvez seja por isso que tanto me sinto atraído por games de histórias densas e intricadas, que me trazem tanta reflexão quanto livros, filmes e mesmo discussões olho-no-olho. A meu ver, jogos são a Oitava Arte, a evolução do cinema para uma mídia interativa e capaz sim de insights àqueles que se aventuram em suas entranhas.

Essa percepção pode só não ser tão tátil por conta do perfil dos jogadores. Embora uma boa parte deles sejam hoje os pais que cresceram com Atari, muitos ainda são crianças e adolescentes e adultos que não enxergam nada além de diversão. Focam no aspecto lúdico e esquecem-se do poder que os jogos podem ter nas mãos de alguns poucos times e indies competentes. E rebaixam-nos a meros itens de entretenimento supérfluos.

Eu não espero uma revolução na forma com que as pessoas pensam e vêem os jogos. As grandes corporações não têm se esforçado muito para mudar o quadro acima, e não as culpo por isso - enquanto o lucro estiver nos níveis previstos e os achievements e trophies estiverem pulando na tela dos jogadores, as coisas estarão bem. Mas acredito muito nos jogos como um vasto poderio narrativo, reflexivo e poético aliado à interação e escolhas. Pode soar meio romântico de minha parte, ainda mais porque enxergo os jogos como uma ciência (mais humana do que exata, há de se dizer); porém é minha forma de encarar os games. Se você tiver dúvidas em relação aos motivos que o levam a jogar, questione-se e veja qual o real significado disso em sua vida. Afinal, como já diria um sábio anônimo,

Saber o que perguntar já é saber a metade.

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