Seriam os videogames perda de tempo?
Em Jogos | 14/03/2010 03:53
Jogos são uma mídia voltada, em tese, ao puro entretenimento. Se há arte, densidade ou complexidade psicológica, em tese estes são apenas artifícios para tornar a experiência de entretenimento ainda mais convincente, contribuindo para que despendamos dezenas de horas de nossas escassas vidas diante de nossos consoles/PCs apreciando nossos jogos favoritos. Estaríamos nós desperdiçando nosso parco tempo na Terra diante desses caríssimos equipamentos eletrônicos, interagindo com entidades virtuais que em nada agregam a nosso intelecto? Ou estamos nós apenas deleitando-nos com uma nova forma de Arte, da mesma forma como apreciamos livros e filmes?
Já tem algum tempo que esses questionamentos têm rondado minha mente, e confesso que as questões tornaram-se ainda mais intensas após ler este tópico no fórum OuterSpace e ver o vídeo abaixo.
Mesmo sendo eu um estudante de produção de jogos e aspirante a indie developer, costumo questionar-me sobre a validade de minhas (futuras) criações, pontuando se eu não estaria contribuindo para a alienação de pessoas ao invés de ajudá-las de alguma forma a tornarem-se alguém melhor ou a ao menos aprender algo com aquilo que estou criando. Não que os jogos, com seu caráter lúdico e de entretenimento, devam ter algum valor utilitário. Ou que mesmo como (um eventual) objeto de Arte tenham algum valor além da Arte pela Arte.
O fato é que o tempo é escasso. E do alto de nossas 24hs diárias multiplicadas pelos anos de nossas vidas temos que muito desse tempo é consumido com tarefas triviais, metódicas e, em certa medida, acéfalas. Não estou dizendo que os videogames se encaixem em algum desses adjetivos - sinceramente eu acho que não - e mesmo que não devemos ter nosso momento de puro vazio mental para aquele relax de descompressão (é aí que os jogos entram para nos ajudar a desestressar!). Talvez a pauta seja mesmo relacionada ao excesso e ao consumo do tempo com atividades rasas do que com (os coitados dos) jogos.
Brice Morrison, autor do excelente The Game Prodigy, escreveu recentemente um excelente post justamente sobre o tema. Uma das frases dele que mais me fez refletir,
And so reluctantly I waved goodbye to my entertaining friend in search of deeper art and ideas.
só me fez pontuar o quanto os games ainda têm a crescer como mídia, tanto em maturidade de conteúdo quanto em aceitação por parte das massas. E é aí que entra uma outra discussão que costumo trazer: seriam os games apenas entretenimento por entretenimento ou poderiam ser algo mais, a ponto de nos trazer reflexão, discussão de temas conflitantes ou mesmo insights que conduzem a mudanças de vida?! Como jogos, os jogos estão aí para nos divertir e não para necessariamente nos ensinar ou trazer profundas reflexões sobre o Universo, a Vida e Tudo o Mais. Mas aí é que entra (novamente) a questão do tempo.
90hs de um Xenosaga. 60hs de um Final Fantasy. 8hs de um Resident Evil. 7hs de um Dead Space. 10 minutos de uma sessão de Wii Sports. Tudo isso é tempo consumido; não necessariamente para o bem ou para o mal (adoramos polarizações!): é apenas tempo consumido. Da melhor forma? Não sei dizer, é uma questão pessoal (e social?). Mas ainda assim é o tal tempo consumido. E isso em excesso pode ser sim um hell of a problem, como bem relatou em sua vídeo-história mais acima o Mr. CirrusEpix.
Novamente citando o companheiro Brice Morrison,
To many people, games are only allowed to exist for pure entertainment.
E isso é necessariamente um problema? Jogos são também uma válvula de escape, uma fuga da realidade, uma forma de vivermos outras vidas, outras eras, em outros mundos - e interagindo para tal. Livros e cinema também são similares em seus usos, mas sem o coeficiente de interação para tornar a experiência mais pessoal e, por que não?, moralmente dependente de nossas escolhas.
O fato é que, nesse assunto controverso, o melhor é questionar-se a si mesmo (pleonasmo enfático) o porquê dessa afeição pelos jogos digitais. Convenhamos: é um hobby caro, demorado - tomando tempo (olhe ele aí de novo!) que poderíamos estar a fazer outras coisas - e em certa medida cheio de contravenções penais frente às leis internacionais e de nosso país. Por que o apreciamos tanto? Por que investimos tanto de nosso tempo em uma atividade que, na prática, pouco parece agregar à nossa existência? Eu arrisco meu palpite.
Xenosaga, mesmo com deslizes, é um primor artístico e narrativo
Para mim, jogos são uma forma de transcender nossa existência e exercitar nossa coragem e poder de escolha. Escolha do real, do surreal, da vida, da morte, da punição, do julgamento, da intransigência. Escolhas essas por vezes impossíveis no mundinho fora da tela e que encontram nos jogos a interação perfeita para personificação de nossa realidade (ainda que limitada pela estrutura do jogo). E talvez seja por isso que tanto me sinto atraído por games de histórias densas e intricadas, que me trazem tanta reflexão quanto livros, filmes e mesmo discussões olho-no-olho. A meu ver, jogos são a Oitava Arte, a evolução do cinema para uma mídia interativa e capaz sim de insights àqueles que se aventuram em suas entranhas.
Essa percepção pode só não ser tão tátil por conta do perfil dos jogadores. Embora uma boa parte deles sejam hoje os pais que cresceram com Atari, muitos ainda são crianças e adolescentes e adultos que não enxergam nada além de diversão. Focam no aspecto lúdico e esquecem-se do poder que os jogos podem ter nas mãos de alguns poucos times e indies competentes. E rebaixam-nos a meros itens de entretenimento supérfluos.
Eu não espero uma revolução na forma com que as pessoas pensam e vêem os jogos. As grandes corporações não têm se esforçado muito para mudar o quadro acima, e não as culpo por isso - enquanto o lucro estiver nos níveis previstos e os achievements e trophies estiverem pulando na tela dos jogadores, as coisas estarão bem. Mas acredito muito nos jogos como um vasto poderio narrativo, reflexivo e poético aliado à interação e escolhas. Pode soar meio romântico de minha parte, ainda mais porque enxergo os jogos como uma ciência (mais humana do que exata, há de se dizer); porém é minha forma de encarar os games. Se você tiver dúvidas em relação aos motivos que o levam a jogar, questione-se e veja qual o real significado disso em sua vida. Afinal, como já diria um sábio anônimo,
Saber o que perguntar já é saber a metade.
Bom dia André!
Sou meio suspeita para falar, pois adoro jogos. O tema que vc citou sobre ter direito a escolhas e uma estória/história que nos faça pensar (RPG) me auxiliou em coisas boas: aprendi mais inglês, diversão segura, desperta o raciocínio, reflexo, interesse por outras culturas e livros.
Não me arrependo que jogo, mas do que ainda não joguei! :)
ResponderExcelente post, rapaz. Esse tipo de coisa faz pensar mesmo.
Responder@Juliana: bem sei de sua paixão pelos RPGs, e não tenho dúvida de que essas pequenas (grandes) obras digitais possam nos trazer algum tipo de conhecimento ou, ainda que não o tragam, forçar-nos a aprender algo que terá utilidade além do universo dos jogos (como o caso de um novo idioma, situação esta na qual eu me incluo, ou mesmo curiosidade por mitologias nas quais se baseiam).
@Jigu: isso realmente nos faz pensar, com certeza! Depois que conversamos sobre o tema semana passada após eu lhe mostrar o vídeo do ScrewAttack, fiquei com a pena na tinta forçando-me a escrever algo. Até porque já era um debate interno que eu estava a ter comigo mesmo. E, somando-se ao post do Brice no The Game Prodigy (o qual vi ontem), percebi que as energias estavam culminando para que eu escrevesse o breve post.
ResponderSe tomarmos como base que em nossa vida não há "continue" ou vida extra os jogos são o melhor ensaio para administrarmos situações novas.
Errar de "mentirinha" na vida dos jogos para acertar de verdade na vida real. Fui jogador de MMORPG por um bom tempo e percebi que é muito bom exercer liderança administrando clãs, reunir pessoas e administrar situações de conflito. Motivar e ser enérgico tudo isso no mundo do faz de conta te prepara para situações reais também. Presenciamos consultores gastando fortunas com cursos de motivação e liderança para ficar um final de semana "aprendendo" coisa que fazemos nos divertindo. Até vi uma reportagem uma vez de um cara que arrumou emprego no yahoo graças ao desempenho dele administrando um clã no Warcraft. Enfim penso que os jogos não são bons ou ruins, é apenas uma ferramenta que aflora suas características e cabe a nós tirar proveito disso ou não.
ResponderInteressantes observações, caro Deivid! Está aí um outro conjunto de possibilidades que os jogos podem trazer. Fora que, jogando em rede, temos a possibilidade de conhecer e conversar com pessoas dos mais diversos locais do mundo, com as mais diferentes culturas - e interagir junto delas para tomada de decisão, o que por si só já é um baita aprendizado e exercício de convivência, por mais que apenas em um espaço lúdico.
ResponderExcelentes reflexões!!! Se pegarmos a própria historia dos video-games, eles surgiram de um ambiente de contra-cultura, no qual tinhamos uma mistura de movimento hippie com a busca por elementos que visavam ampliar a percepção humana e transcender os limites de cada indivíduo. Acredito que isto vá de encontro com a sua afirmação:
"Para mim, jogos são uma forma de transcender nossa existência e exercitar nossa coragem e poder de escolha. Escolha do real, do surreal, da vida, da morte, da punição, do julgamento, da intransigência."
Referente ao aspecto lúdico, no qual você afirma: "A meu ver, jogos são a Oitava Arte,...Essa percepção pode só não ser tão tátil por conta do perfil dos jogadores. Embora uma boa parte deles sejam hoje os pais que cresceram com Atari, muitos ainda são crianças e adolescentes e adultos que não enxergam nada além de diversão. Focam no aspecto lúdico e esquecem-se do poder que os jogos podem ter nas mãos de alguns poucos times e indies competentes."
Pessoalmente acredito ser impossível disassociar o game, inclusive o vídeo-game, do aspecto lúdico. Mesmo os games que tenham um objetivo diretamente voltado ao ensino (serious games e game based learning), ou ao marketing (advertising games) ou simplesmente ao entretenimento, todos eles têm como elemento central o aspecto lúdico. Arrisco-me a dizer que o ponto central do game não estaria apenas em um bom enredo e uma boa jogabilidade, mas sobretudo no grau de ludicidade oferecido pelo game.
Segundo uma definição no Wikipedia:
"Atividade lúdica é todo e qualquer movimento que tem como objetivo produzir prazer quando de sua execução, ou seja, divertir o praticante. A atividade lúdica também é conhecida como brincadeira.
Desde os filósofos gregos que se utiliza esse expediente para ajudar os aprendizes. Assim, brincadeiras e jogos podem e devem ser utilizados como uma ferramenta importante de educação. Frequentemente, as atividades lúdicas também ajudam a memorizar fatos e ajudam em testes cognitivos."
Acredito que todo o game siga este caminho e talvez um outro ponto de questionamento seja saber se todo o produtor de game possui a real consciência da capacidade e objetivos lúdicos oferecidos pelos jogos.
Abraços e excelente discussão!!!
ResponderCom certeza o aspecto lúdico dos jogos é fundamental, caro Anderson. Ainda que sejam estes serious games, ad games ou qualquer outra ramificação, o cerne da coisa tem de sempre girar em torno da diversão, pois em última instância é isso que caracteriza um jogo.
ResponderOi, Intentor!
Adorei o post, não só por mostrar o vídeo, quanto pelas suas próprias reflexões.
Para ser bem sincero, achei o vídeo um tanto pessimista, parecendo aquelas sessões de terapia de alcoólicos. Pô, videogame não é tanta perda de tempo assim. Se o cara realmente perdeu o casamento e outras coisas, é porque ele não sabia administrar o próprio tempo, e não por culpa dos videogames.
Eu, por exemplo, jogo muito mais do que a maior parte dos seres humanos, e ainda assim formei em faculdade, sempre pratiquei exercícios físicos, namorei, saí com amigos e fiz várias outras coisas. Tenho paixão por vgs, e provavelmente jogarei até morrer.
Admito que em minha adolescência joguei muita porcaria, mas acredito que até isso tenha servido para estimular meu lado crítico e bom gosto não apenas com os próprios vgs, mas com arte e música também, além de outras coisas.
Isso que ele citou de nos fazer mais inteligentes, mais lógicos, é pura balela, na minha opinião, coisa de gente que faz tese sobre jogos mas não os joga.
Por ser uma forma de arte nova, com certeza consumimos muita coisa que não deve vai ser considerada boa no futuro, mas nós somos exatamente essa geração que vai poder passar as coisas boas para o futuro. Considerando o que esse cara disse, poderíamos dizer que qualquer forma de arte ou entretenimento é inútil. Para que, então, os gregos "perdiam tempo" criando formas arquitetônicas belas? Para que os renascentistas tanto enalteceram o barroco e o gótico?
Fato é que o conceito de tempo na atualidade está completamente maluco. Há tanta informação que muita gente acha que tem que fazer de tudo todo o tempo. Acham que, com a velocidade e a facilidade com que se obtém qualquer coisa, que automaticamente tudo se tornou desnecessário ou supérfluo. Besteira. Temos todo o tempo do mundo como todo mundo sempre teve.
Mas uma só ressalva: fotografia já é considerada a oitava arte, e quadrinhos a nona. Talvez a arte computacional seja a décima, então vgs devem ser a décima primeira. =]
ResponderCaríssimo Barry! Não havia pensado no vídeo pelo ângulo "Alcóolicos Anônimos": excelente sacada (só faltou o "Meu nome é X e eu não jogo há Y semanas" para ficar ainda mais realista. E igualmente concordo contigo em relação ao clima pessimista do vídeo. Ao assisti-lo, tem-se a impressão de que os videogames são um mal a destruir nossas vidas, que deve ser exterminado ou, ao menos, ignorado. Se o guerreirinho lá perdeu esposa e além por conta dos videogames, foi simplesmente porque ele desbalanceou sua vida a ponto de somente jogar e esquecer-se de que existem outras coisas além dos universos virtuais dos games. (Nota: viu que o jogo que ele queima é justamente o World of Warcraft? Muitos consomem suas vidas diante do PC na companhia dos seres mitológicos criados pela Blizzard.)
Foram igualmente ótimas suas observações sobre a visão de "entretenimento" da arte (e sua suposta inutilidade decorrente disso) e sobre a loucura de nossa percepção de tempo. Como há muito o que vermos, aprendermos e vivenciarmos hoje, é difícil para muitos o correto balanceamento das atividades diárias. Como você bem pontuou, o tempo continua o mesmo. É nossa percepção que está distorcida.
Então os games talvez sejam a décima primeira arte? Justo. Tanto a oitava quanto a nona e a décima estão em posições que lhes cabem. E, independente de rótulos e posições no ranking das artes, o que vale é nos divertirmos e apreciarmos essas belas obras digitais que são os jogos!
ResponderTudo a ver com nossa realidade, noso dia-a-dia.
Um game reflete a expectativa, uma idéia, um sonho, uma necessidade.
É a "cara" do seu criador.
Pode observar que geralmente, games com bom conteúdo de estórias, rpg, sempre apresentam tendências de estilos e conceitos, dando mostras da personalidade do indivíduo que o criou, seja pela expressão do tom de cores, seja pelo vocabulário ou conteúdo do tema abordado, do modo como os personagens se comportam, etc...
Em termos educacionias, são de grande utilidade.
Pensem: - Quem não gostaria de aprender história, baseado em jogos que compõem à risca o fato histórico em si, com datas, fases e personagens caracterizados ao tema?
Matemática: pense em um jogo que ensina de uma maneira divertida, o uso de equações?
Português:-Podemos imaginar um jogo onde as pessoas se interagem com a língua portuguesa e suas tendências e muito mais...
Independente disso, jogar video-game, seja via PC, arcade, o que for, é uma maneira menos poluída de passar o tempo, mais rica em conhecimento, oferecendo ainda a oportunidade de praticar exercício de raciocínio e de relexos ao mesmo tempo.
Da mesma forma que, um jogador de video-game, geralmente não acha o convívio na rua muito interessante, pois vive dentro de casa, geralmente em seu quarto, arquitetando seu mundinho, onde pode de uma certa maneira, se precaver das mazelas do cotidiano, do que não presta no mundo fora de seu lar.
Excelente artigo seu André!
ResponderCaro Armand, fico contente de o encontrar por aqui! Tocou em alguns pontos bem bacanas, hem? Dizer que o game tem a cara de seus criadores só os tornam mais próximos de uma abordagem artística. Todavia, nas grandes empresas, há muito mais da cara do "time" do que de uma pessoa em especial. Se pensarmos na Quantic Dream, p. ex., temos mais de David Cage nos jogos da empresa do que de qualquer outra pessoa. Porém, se nos voltarmos para uma "corporação sem face" como a Activision, seus criadores em sua maioria são apenas nomes nos créditos (ou notícias em sites de games, como no caso da recente demissão dos diretores e fundadores da Infinity Ward).
Quanto aos jogos voltados ao ensino, isso é algo que eu e o Anderson Szalai que postou aí mais acima sempre discutimos na faculdade quando avaliamos o mercado nacional de games. Acredito que há um grande potencial pouco explorado para serious games voltados às mais diversas áreas do ensino - principalmente para crianças, as quais têm natural predisposição para as brincadeiras. Inclusive li hoje uma pequena notícia na Edge (http://www.edge-online.com/news/study-new-games-harm-school-work) sobre o fato de que crianças que possuem consoles em casa seguirem uma tendência de não terem grandes desempenhos no estudo. Sinceramente, duvido um tanto deste resultado, e se assim for é porque os pais não ajudam os filhos a terem um melhor balanceamento das atividades ao longo do dia (excesso sempre é um problema). Como a própria Edge pontuou, será mesmo que essas crianças têm brincado mais com seus videogames do que nós brincamos antigamente com outras formas de diversão? Eu acho que não. O fato é que alguém tem de sair culpado pelo mal desempenho dos alunos - o período de caça às bruxas medieval sempre existirá; as bruxas é que serão diferentes.
E concordo contigo que videogames são uma forma segura de se divertir e mesmo "descomprimir" o estresse do dia-a-dia. A pessoa só tem de tomar cuidado para não deixar essa "segurança" impedi-la de realizar outras coisas (olha o excesso novamente aí!) ou mesmo abdicar do convívio social apenas porque isso poderá fazê-la sair de casa. A questão, como já afirmei no texto e em comentários, tem sua resposta no balanceamento. Mesmo os Gregos já sabiam disso, como prova um velho lema outrora gravado no Templo de Apolo em Delfos: "Meden agan" (Nada em excesso) - se povos tão antigos já afirmavam isso, há grandes chances de que tenha alguma validade ainda hoje.
ResponderMeu grande amigo!
Fenomenal este post (by the way, parabéns pelo site, está realmente muito bom!). Muito adequado ainda, em função de que, como já conversamos antes, o tempo que "invisto" (e aqui uso o termo de forma beeeem lato sensu) em jogos é algo que tem me feito refletir sobre a vida. Antes te entrar no mérito da discussão, devo dizer que muito me alegra vez pessoas tão admiradas quanto o Barry e o Jigu aqui também.
Então vamos lá. Essa é uma reflexão muito importante, mas também muito profunda. Primeiro, o angulo da perda de tempo. Roberto Clemente, notório astro do Baseball, um dia soltou a seguinte perola, que ilustra bem o video:
"Any time you have an opportunity to make a difference in this world and you don't, then you are wasting your time on earth"
Poder-se-ia dizer que jogos são uma perda de tempo. Que não agregam valor, e que o tempo investido em jogar, em entretenimento, é um tempo perdido, que poderia ser investido em algo mais produtivo.
Recentemente tive esse tipo de reflexão, ao concluir que, dados os meus objetivos e ambições, eu deveria investir (e agora stricto sensu) o meu tempo em estudos e trabalho, para conseguir atingir estas metas. Musashi dizia que quando mais difícil uma meta, mais focado deve ser o esforço em atingi-la. Pensando por esse angulo então, como minhas metas são altas, cheguei a conclusão de que deveria utilizar menos o meu tempo jogando, e mais buscando chegar onde desejo.
Mas isso não me faz crer que jogos sejam uma "perda de tempo", e sim que preciso usar meu escasso tempo em prol de outro objetivo. Com que base podemos falar que jogos são perda de tempo? Por não agregarem nada? Não agregam o que? A que? Falar que fazer X ou Y é perda de tempo implica pensar em algo muito importante: Qual o objetivo? Qual o sentido da vida (42!)? Para definir que uma determinada ação é perda de tempo, é necessário saber em que esse tempo deveria supostamente ser investido, e não existe um manual pra vida. Viver é trabalhar? É ganhar dinheiro? É crescer e se multiplicar? A vida de Carlos Slim, por ser repleta de dinheiro e sucesso, e mais valorosa que a vida de Dalai Lama, dedicada ao espirito? É mais valorosa do que a vida de um veggan eremita que more nas montanhas?
A vida é feita de escolhas, não de regras. A vida é composta de infinitos caminhos, e não de uma rota definida. A certeza que temos é que a linha de chegada é a mesma para todos, o que nos cabe é decidir o que fazemos no meio tempo. O objetivo é ter uma mansão? Então jogar videogame é perda de tempo, já que pra isso demanda dinheiro, e dinheiro demanda trabalho. O objetivo é se divertir? Então não é perda de tempo se manter entretido.
Porque entretenimento é visto como algo sem valor? Por acaso arte tem mais valor? O que é arte? Vamos simplificar dizendo que é uma obra que estimula o receptor de alguma forma, intelectual ou emocionalmente. Agora...qual o valor disso? Qual o valor desse estimulo? Se a monalisa me faz chorar, de que vale esse sentimento? De que forma esse estimulo agregou valor a minha vida e me tornou mais apto a cumprir meus objetivos? Podemos tranquilamente concluir que, assim como "entretenimento" pode ser perda de tempo, que "arte" também pode. Livros clássicos, filmes clássicos, música clássica. Tudo muito importante, cultural e estimulante, mas não necessáriamente o tempo investido nisso se reverte em benefícios para obter sucesso, atingir metas. Quantas pessoas são verdadeiramente estimuladas pela arte? Reflitam, para cada 1 pessoa que olha um quadro, le um livro ou ve uma foto, e é estimulada, quantas incontáveis pessoas não veem a mesmíssima coisa como mero entretenimento? Ou as vezes nem isso? Complicado arrumar hierarquicamente o valor da arte ou do entretenimento quando os conceitos podem se misturar, dependendo do receptor. Podem não concordar, mas isto não muda que um receptor diferente pode ter uma visão diferente, e igualmente válida.
Jogos não são perda de tempo por serem perda de tempo. Qualquer coisa que desvie de um objetivo pode ser visto como uma perda de tempo. Ou não, pode ser um descanso necessário.
Acredito que foi Bertrand Russel que uma vez disse o seguinte:
"The time you enjoy wasting is not wasted time."
E isso é verdade. Podemos ter a ressalva que quisermos com jogos, filmes, livros ou o que for. Mas um tempo gasto com prazer não é um tempo perdido necessáriamente.
ResponderCaro amigo David!
Brilhantes observações! As citações utilizadas são deveras pertinentes ao tema - só me fizeram refletir ainda mais sobre a questão.
De fato, "perda de tempo" é um conceito abstrato. O que vale mesmo, como Tolkien bem pontuou através de seu personagem Gandalf, é o que fazemos com o tempo que nos é dado, independente de quanto tempo tivermos. Se estamos fazendo algo que é bom para nós, respeitando os limites do próximo, de forma alguma vejo isso como tempo desperdiçado - é tempo ganho para nós mesmos.
Responder** Olá Intentor, você colocou o link de seu artigo no tópico de mesma discussão do outerspace, meu nick lá é "*Shinobi"... Gostei muito do que li aqui a partir de sua posição como futuro desenvolvedor de games. Felizmente deixei de ver e jogar videogame como eu regularmente costumava a fazer a algum tempo atrás, agora jogo casualmente, quando me sobra algum "tempinho" no máximo 1h... Mesmo assim, com um olhar bem crítico, pois conheço muita gente que disperdiça muito de sua vida frente a TV jogando e não quero mais me ver na mesma situação.
** Bem, não quero discriminar ninguém, mas o videogame tem um fator alienativo poderoso, pois diferente da tv, lhe conquista com a beleza do audio visual, lhe dá sensação de interatividade, mesmo que mentirosa...
Sou um amante de quadrinhos, artes marciais, música e colecionava vidoegames, tenho desde o atari até os mais potentes, mas a verdade é que os videogames afetaram meu ponto fraco. Os personagens que eu mais gostava também estavam presentes no jogos, quando joguei batman 2 de nes, como criança e vítima, acreditava ter o poder sobre o personagem o qual eu não tinha nos quadrinho, ó que os quadrinhos fazima eu tilizar a imaginação e me ajudaram a desenhar, no videogames vc tem que consumir a imaginação alheia. Também cheguei a acreditar que videogames seriam á 8ª arte, mas certamente se buscar conhecer a arte a fundo, verá que está longe disso. ** Os videogames somente usam o poder da arte como uma armadilha... Bem, não irei prolongar, mas reflita sobre esta metáfora:
"O sapo e a água quente
Autor desconhecido
Vários estudos biológicos demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.
Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porem vivo.
As vezes, somos sapos fervidos. não percebemos as mudanças. Achamos que esta tudo muito bom, ou que o que esta mal vai passar - e só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchadinhos e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.
Sapos fervidos não percebem que além de ser eficientes tem que fazer as coisas. E, para que isso aconteça, há necessidade de um continuo crescimento, com espaço para o dialogo, para a comunicação clara, para dividir e planejar, para uma relação adulta.O desafio ainda maior esta na humildade em atuar respeitando o pensamento do próximo.
Há sapos fervidos que acreditam que o fundamental é a obediência, e não a competência: manda quem pode, e obedece quem tem juízo. E, nisso tudo, onde esta a vida de verdade? E melhor sair meio chamuscado de uma situação, mas vivos e prontos para agir."
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